Disponível em: <http://veja.abril.com.br/100698/p_134.html>.
Acesso em: 08 abr. 2009.
Chama o Mansur
Rejeitado no início, o dono do Mappin eda Mesbla pode ser a única salvaçãopara os credores da Arapuã
David Friedlander e João Sorima Neto
Balcão quebrado
A situação atual da Arapuã é a seguinte:
Deve mais de 800 milhões de reais afornecedores e bancos
Teve um prejuízo de 183 milhõesde reais no ano passado
Faturou 1,6 bilhão de reais em 1997
Presente em 22 Estados, a Arapuã é amaior rede nacional de venda de eletroeletrônicos
Tem 244 lojas
Emprega 4 891 funcionários
A adrenalina do empresário Ricardo Mansur, o caçador de empresas que nos últimos dois anos comprou os magazines Mappin e Mesbla, estava na estratosfera na semana passada. Refugiado em sua casa de Londres, numa vã tentativa de diminuir um pouco a ansiedade, Mansur ligava de hora em hora para São Paulo. Queria notícias sobre aquela que pode ser a jogada mais ousada de sua vida. Ele está oferecendo 600 milhões de reais pela Arapuã, a maior rede de eletrodomésticos do país. A empresa é um gigante moribundo. Deve mais de 800 milhões de reais na praça e foi tomada da família Simeira Jacob pelos principais credores, que são os fabricantes de televisores, geladeiras e fogões. Esses industriais, que até agora torceram o nariz para Mansur, resolveram sentar para conversar na semana passada. Como não apareceu nenhuma outra proposta pela Arapuã, o lance de Mansur pode ser a única chance que eles têm de recuperar ao menos uma parte de seus créditos. Na sexta-feira à noite, os fornecedores aceitaram a proposta de Mansur. Para que o negócio se feche, o empresário ainda precisa convencer um outro grupo de credores, formado basicamente por bancos, que têm quase 200 milhões de reais para receber. "O negócio só sai se essa turma aceitar perder um pouco", diz um dos executivos que conduzem as negociações.
Para Mansur, a compra da Arapuã representa a chance de transformar-se no rei do comércio brasileiro. Essa é a sua segunda investida na Arapuã. No mês passado, quando veio a público que a rede de lojas estava quebrada, o empresário tentou pechinchar. Fiel ao seu estilo de atacar empresas com a corda no pescoço, ele ofereceu cerca de 300 milhões de reais pelo negócio. O bloco de fornecedores da Arapuã, que tem mais de 600 milhões para receber, não quis conversa. Achou a proposta muito ruim e ficou com medo de que, levando a Arapuã, Mansur ficasse poderoso demais na hora de regatear preços. Como o negócio é muito interessante para Mansur, ele topou dobrar a oferta. As negociações começaram na quarta-feira da semana passada na sede do Bradesco, que está fazendo a aproximação entre o empresário e a indústria de eletrodomésticos. Feito o acerto com os principais credores, que são catorze fábricas de produtos eletroeletrônicos, os representantes de Mansur começam a discutir nesta semana com os bancos.
Pérola do setor — A Arapuã era considerada uma pérola do setor de comércio. Suas ações, cotadas em bolsas, eram recomendadas por especialistas como um excelente negócio. Dois anos atrás, foi apontada como uma das empresas mais rentáveis do país. O vigor dessa rede emergente acabou em meio a uma combinação entre calote de clientes e concorrência selvagem de preços. Como acontece com todas as casas que vendem produtos de valor mais alto, como geladeiras e TVs, a maioria dos clientes da Arapuã faz compras a prestação. De 1996 para 1997 o nível de inadimplência dobrou e a caixa da empresa começou a entrar em desequilíbrio. A situação piorou do meio do ano passado para cá.
Primeiro, houve um erro de previsão dos industriais, que fabricaram mais do que as pessoas estavam dispostas a comprar. O comércio também errou, fazendo a mesma aposta. Abarrotou seu estoque financiando-se em bancos e entre as próprias indústrias. Só que os consumidores não apareceram e ficaram ainda mais arredios com a alta dos juros em outubro. Para desovar os estoques, o comércio derrubou os preços em até 30%, mas nem esse truque adiantou. Além disso, as grandes redes de hipermercados atulharam suas prateleiras de eletroeletrônicos com ofertas melhores que as das lojas especializadas, como Casas Bahia, Ponto Frio e Arapuã. Foi o golpe de misericórdia para a Arapuã. E também para outras redes importantes, como a Paraíso, uma das maiores do Nordeste, e as Casa do Rádio, de Belo Horizonte, que entraram em concordata. A indústria calcula em cerca de 1 bilhão de reais a dívida total do comércio com seus fornecedores.
A propostaCasas Bahia e Ponto Frio especularam, mas só o empresário Ricardo Mansur apresentou uma oferta. Ele quer comprar a Arapuã por 600 milhões de reais, pagando em cinco anos.
Saída de emergência — Se o negócio não sair com o dono do Mappin, existe a possibilidade de que os fornecedores se juntem para tomar conta da rede. Seria uma saída de emergência, até que surja uma solução melhor. Os fabricantes estão apavorados com a idéia de que a Arapuã desapareça. Seria um desastre. Os bancos deixariam de financiar as outras lojas, o que poderia provocar uma quebradeira geral. Além disso, o fim da Arapuã aumentaria a concentração no setor. Hoje, apenas cinco redes (incluindo a Arapuã) distribuem 60% de todos os televisores, videocassetes, geladeiras e freezers produzidos no Brasil. A situação é delicada. Na semana passada, a dívida da Arapuã aumentou 22 milhões de dólares, em função de um vencimento de títulos lançados pela empresa no exterior.
Caso Ricardo Mansur leve a Arapuã, ele se tornará dono de um império comercial que emprega mais de 17.000 pessoas e fatura 4,5 bilhões de dólares por ano. É um dos maiores fenômenos do capitalismo recente brasileiro. Mansur começou a vida montando uma papelaria no centro de São Paulo, trouxe a Pizza Hut para o Brasil, foi dono dos laticínios Vigor e Leco (vendidos a seu irmão, Carlos Alberto) e é dono de um banco. Subiu na vida comprando negócios de empresários em dificuldades. É o caso dos Simeira Jacob.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009
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