Finanças
5/9/2007
O império contra-atacaLondres reage à decadência e disputa com Nova York o título de centro financeiro mundial
STUTTARD, DA CITY, provoca o touro de Wall Street e vem ao Brasil para conquistar clientes: “Se forem lançar ações, venham para Londres”
Londres X Nova York
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Com toda a pompa e circunstância, o inglês John Stuttard prepara-se para falar a banqueiros, corretores de valores e investidores num almoço promovido pela BM&F em Campos do Jordão. O calor de agosto esquenta o dia na cidade serrana, mas ele não perde a pose e mantém abotoado o paletó – de risca de giz, of course. No peito, um centenário medalhão de ouro branco, com 250 diamantes e o brasão da City of London. Stuttard é o 679º Lord Mayor da City, como é chamado o prefeito honorário e embaixador global do distrito financeiro londrino. Com o sotaque típico da realeza britânica, faz os cumprimentos de praxe e não perde tempo para soltar a primeira piada. Seu alvo é o verdadeiro prefeito de Londres, um polêmico político do Partido Trabalhista, com quem às vezes costuma ser confundido. “Meu nome não é Ken Livingstone”, diz, arrancando os primeiros sorrisos. “Ele prefere ir para a cama com Hugo Chávez em vez de George Bush, mas eu não dormiria com nenhum deles.” A platéia delira.
Que ninguém se engane. Lord Mayor não está para brincadeiras e declarou guerra a Wall Street. Em sua viagem de três semanas pelo Brasil, encerrada no sábado 1o em São Paulo, ele tentou seduzir empresários, financistas, políticos e até estudantes para fazerem negócios na City londrina. Em todas as ocasiões, bradou as vantagens do distrito financeiro inglês – um quadrado com uma milha (1,6 km) no centro da antiga capital imperial – e lembrou as desvantagens da concorrente americana. “Não quero zombar de Nova York. Nós adoramos Nova York. Mas, se vocês tiverem de lançar ações, venham para Londres”, convidou. Até agora, somente três empresas brasileiras, todas novatas, aventuraram-se a captar recursos na City: Itacaré, Clean Energy Brazil e Infinity Bio Energy. Na Bolsa de Nova York (a NYSE), que atrai as companhias tupiniquins desde os anos 90, esse número é 11 vezes maior. Todas as grandes estrelas da Bovespa são negociadas por lá.
Para reverter a preferência a seu favor, Lord Mayor veio pegar o touro de Wall Street à unha no próprio quintal brasileiro da NYSE. Em São Paulo, além da BM&F, passou na Fiesp e esteve com o prefeito Gilberto Kassab e o ministro Miguel Jorge. No Rio de Janeiro, visitou a Firjan e o governador Sérgio Cabral. E, claro, o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli – a estatal é a empresa estrangeira mais negociada em Nova York. Em Porto Alegre, Stuttard foi à Fiergs e à governadora Yeda Crusius. Em todas as ocasiões, medalhão no peito e discurso no bolso, como fez nas 22 viagens a países estrangeiros desde que assumiu o cargo não-remunerado de Lord Mayor, em novembro passado. O mandato é de um ano. Nesta semana, seu destino é o México. Levou consigo o mesmo cardápio de serviços que ofereceu aos brasileiros: grandes mercados de ações, bônus, moedas, seguros e até consultoria em parcerias público-privadas, as PPPs. “Fizemos mais de 800 PPPs no Reino Unido e podemos ajudar com nosso know-how”, afirmou, em inglês, aos interlocutores em Campos do Jordão. E emendou, num português pouco convincente: “Nosso centro financeiro não é só para inglês ver.”
“NOSSO CENTRO FINANCEIRO NÃO É SÓ PARA INGLÊS VER” JOHN STUTTARD
Não é mesmo. Ao que tudo indica, o contra-ataque do antigo Império está sendo bem-sucedido. Os números de Stuttard, um contador que fez carreira no mercado de capitais, são eloqüentes. A City de Londres movimenta recursos de mais de US$ 7 trilhões, emprega mais de um milhão de pessoas e contribui com 12% do Produto Interno Bruto britânico. Lá, são realizados 32% das operações com moedas e 90% dos contratos de metais negociados no mundo. Mais de 600 empresas estrangeiras são negociadas na Bolsa de Valores de Londres (LSE). Pelo menos nos lançamentos de ações, os IPO’s, a LSE está na frente da NYSE. No ano passado, foram levantados pelas empresas US$ 104 bilhões em Londres e US$ 69 bilhões em Nova York. Este ano, a primeira registrou US$ 26 bilhões até junho e a segunda, US$ 21 bilhões. No mercado de balcão, o inglês Alternative Investment Market (AIM) já rivaliza com a americana Nasdaq na atração de empresas internacionais com desejo de exposição global. “Em um ano, atraímos mais empresas do que Nova York e Hong Kong”, gaba-se Lord Mayor. Até mesmo Hollywood sucumbiu aos encantos da City. Onde será rodada a continuação do famoso filme Wall Street (1987), em que o astro Michael Douglas interpreta o investidor inescrupuloso Gordon Gekko? Em Londres.
Essa virada histórica, depois de décadas de supremacia americana, tem fundamentos opostos dos dois lados do oceano atlântico. Neste século, além de sofrer a perda das Torres Gêmeas em 2001, Wall Street foi abalada pela crise de confiança corporativa com a quebra da Enron. Atolada em fraudes contábeis, a companhia causou prejuízos imensos aos investidores americanos. O Congresso americano reagiu com firmeza e apertou ainda mais as rédeas da legislação que regula a atividade das companhias abertas. A lei Sarbanes-Oxley (SOX), de 2001, é detalhista e responsabiliza o presidente e o diretor financeiro por eventuais problemas contábeis, entre outras medidas. O ambiente de negócios piorou. “A Sarbanes-Oxley está matando Nova York. É o último prego no caixão de Wall Street”, afirmou Stuttard à DINHEIRO.
SINAL DOS TEMPOS: A CONTINUAÇÃO DO FILME WALL STREET SERÁ RODADA EM LONDRES
Em Londres, ocorreu o contrário. Num movimento que ele chama de “Big Bang”, o governo britânico liberalizou o mercado financeiro e permitiu a entrada de empresas e investidores estrangeiros, sem restrições. O foco é maior na governança corporativa das próprias empresas do que na imposição permanente de regras. A supervisão ficou a cargo da Financial Services Authority (FSA), uma agência pró-mercado. O Banco da Inglaterra ganhou independência para tocar a política monetária e deu estabilidade macroeconômica aos investidores. O atual primeiro-ministro Gordon Brown, que durante dez anos ocupou o cargo de Chancellor of the Exchequer – espécie de ministro das Finanças –, coordenou essas mudanças. “Brown orgulha-se de não ter criado regulamentações quando os Estados Unidos criaram a SOX”, diz Lord Mayor. É por isso que empresas chinesas, indianas e russas preferem a City a Wall Street. Falta agora conquistar as brasileiras. O touro que se cuide
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terça-feira, 30 de junho de 2009
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