Securitização é alternativa para escassez de crédito
por Natália Flach (Gazeta Mercantil)
06/03/2009
O presidente da Companhia Brasileira de Securitização, Fernando Brasileiro, menor liquidez do mercado reduziu linhas comuns
SÃO PAULO - Durante a entrevista, o telefone toca e a voz do outro lado confirma mais um negócio fechado. "Isso é uma honra para mim." Quem diz isso é Fernando Brasileiro, presidente da Companhia Brasileira de Securitização (Cibrasec), que assumiu o cargo em julho do ano passado com a meta de captar novos investidores interessados em Certificados Recebíveis Imobiliários (CRI), como os fundos de investimento e os fundos de pensão.
Em fevereiro, a empresa - que no ano passado chegou a ter 50% do market share - emitiu em três CRIs por volta de R$ 260 milhões a R$ 270 milhões, um aumento em relação a janeiro, quando as emissões atingiram R$ 145,76 milhões. No ano passado, o volume total superou R$ 4,8 bilhões, uma expansão de 229% em relação a 2007. "Sem dúvida, 2008 foi um ano espetacular para a securitização imobiliária", afirma Brasileiro.
Gazeta Mercantil - Como funciona o processo de análise das carteiras?
Avaliamos se todos os clientes estão pagando direitinho ou não. Pode acontecer o seguinte, de 50 compradores, 40 são muito bons e 10 são mais ou menos. Então, uma possibilidade é comprar a parte mais garantida da carteira. Uma análise criteriosa das carteiras é fundamental para permitir uma precificação adequada e para que depois ela seja vendável. Outro tipo de operação é exatamente o contrário, o buit-to-suit. É o caso de uma grande multinacional que precisa construir uma sede nova. Ela contrata uma construtora e fala o seguinte: "você vai comprar o terreno, vai construir e eu vou alugar por 10 ou 15 anos". A construtora então gerou um fixo de recebíveis em cima daquele aluguel do imóvel que ela vai construir. Então, eu posso pegar esses recebíveis e adiantá-los para financiar a obra. Nesse caso, a minha análise está muito baseada na estrutura legal e no nome corporativo único. São duas formas de analisar o risco: uma depende do comportamento histórico da carteira - sendo que é possível pedir uma co-obrigação do originador da carteira, ou seja, aquilo que não performar ele põe dinheiro - e o nome corporativo que está por traz do locatário do imóvel. Então, uma securitizadora tem que ter a capacidade de analisar o risco e acompanhar a carteira por toda a vida dela, até vencido o último recebível. Já para a outra forma, eu tenho que ter uma área de crédito desenvolvida que avalia os riscos corporativos.
Gazeta Mercantil - E para vender, qual é mais fácil?
Quando você vai vender é mais fácil quando se tem nomes corporativos por trás, porque as pessoas no Brasil estão acostumadas a tomar o risco de grandes nomes. A análise de compra de carteira de recebíveis é menos difundida. E aí está a chancela da Cibrasec. As pessoas acreditam na nossa análise.
Gazeta Mercantil - E como a Cibrasec ganha com isso?
Quando eu compro uma carteira, eu compro por um preço. E depois eu vou vendê-la por outro preço. Se eu te compro a 14, vendo a 8, se compro a 12, vendo a 7 e faço spread.
Gazeta Mercantil - Como vocês decidem o preço?
Depende do custo do dinheiro. Se tenho capital próprio, e eu tenho que investir pelo menos um mínimo que o mercado me rentabiliza, então, tenho que ver o custo de oportunidade do mercado e qual é o risco embutido. Ou seja, uma carteira tem um custo mínimo. Acima disso, eu tenho que embutir o spread de crédito. E uma carteira melhor custa menos, já uma pior eu vou descontar mais. Mas é bom lembrar que eu estou inserido no mercado, portanto, com a taxa de juros mais alta, não posso cobrar mais barato do que a média. A única coisa que pode ser feito é vender para um investidor e isso pode ser mais competitivo do que vender para um banco em um financiamento direto. Mas isso também depende do nível de competitividade do momento.
Gazeta Mercantil - Muitas pessoas reclamam do valor colocado no mercado...
É verdade que já tive clientes que já falaram que realmente estava muito caro. Mas deixa eu te explicar o porquê. Houve um momento, especialmente até ali no fim do ano passado, que não se sabia preço, e até hoje não se sabe direito. Só agora ele está se normalizando. Não sabe por quanto você consegue tomar dinheiro, não sabe por quanto você consegue colocar no papel para o investidor. Resultado: as pessoas começam a precificar defensivamente, ou seja, colocar um preço alto para ter margem para poder segurar, porque não sabe se você vai ter um custo maior para captar lá na frente ou não. E isso inviabilizou muitos negócios, porque as pessoas jogaram o preço lá em cima. O custo do dinheiro subiu muito, assim como a percepção de risco. E quando os clientes falavam que estava muito caro, só podia dizer "infelizmente, nada me garante que eu vou conseguir colocar depois que me permita pagar o patamar que estava trabalhando naquele momento". Por isso que toda empresa deve olhar o que é mais competitivo no momento. Eu tenho vários clientes que gostam do nível de preço que eu coloco, porque são competitivos. Tenho clientes que vão desde grandes empresas de capital aberto até médias empresas.
Gazeta Mercantil - Qual é a meta de vocês?
O desafio é a gente ser competitivo. Ninguém vai tomar dinheiro da gente se tiver acima da média de mercado. Mas não vou ter dar o nosso preço, porque como todo mundo sabe, falar preço compromete. O que acontece, na prática, é que o preço funciona muito em função do risco. E hoje os riscos variam muito no mercado. É muito difícil hoje um incorporador, por exemplo, te comprar uma carteira de recebíveis abaixo da curva de juros da carteira. Você tem carteiras de 12% ou 12,68% acima do IGP-M - vou usar o IGP-M como base. Tomar dinheiro nesse nível, ninguém vai tomar. Hoje, o dinheiro está em patamares de 13% ou 14% acima do IGP-M. E isso vai depende muito do prazo, da característica da operação. O que aconteceu foi o seguinte: chegamos a ver alguns clientes reclamando de IGP-M de 16,45%. Então, eles falam que se eles puderem segurar o financiamento, vão segurar, porque vão tentar arranjar o mais barato. Mas vou te falar, esses 16,5% não eram necessariamente mais caro do que obter financiamento direto com alguns bancos.
Gazeta Mercantil - Então, qual seria a vantagem?
Se você precisa efetivamente de caixa e, dentro do seu custo de oportunidade, é a linha que você tem disponível, então, talvez seja a única maneira de fazer negócio. Quando eu falo de custo de oportunidade, o cliente vai comparar todas as alternativas de financiamento que existem, isso é o natural. Eu acho o seguinte: se as empresas puderem não tomar crédito a IGP-M 16% elas não vão tomar.
Gazeta Mercantil - E as empresas têm tido problema em obter crédito? Isso pode ser uma vantagem para vocês?
Os clientes com quem a gente opera são grandes companhias abertas, e pequenas e médias também. Eles são muito bons e por isso mesmo têm acesso a crédito. O único problema é que, como o mercado está menos líquido, a oferta de crédito diminuiu. Nesse sentido, é positivo para a gente, porque viramos uma alternativa. E mesmo quando o mercado voltar a ser líquido, eu acho que a gente vai ficar bem, porque inserimos a empresa no contexto. Óbvio que, independentemente do cenário, os clientes vão procurar a melhor oportunidade. E nós vamos continuar sendo competitivos dadas as condições de mercado. Voltando à sua pergunta, eu acho que as empresas não estão com dificuldade em obter crédito, mas elas fizeram um reposicionamento de seus lançamentos e reviram seus caixas para diminuir também a sua demanda por crédito, porque a liquidez está escassa. E, independentemente disso, a qualidade de muitas empresas continua boa. Talvez o que você pode olhar é alguma variação do fechamento no primeiro trimestre. Talvez no final de março a gente consiga visualizar um efeito da diminuição da geração de negócios, o efeito do resultado da atividade imobiliária de forma mais clara. Mas, sem dúvida, o ano de 2008 foi espetacular. Volto a falar: o problema é crédito ou liquidez? Mas não tem uma empresa séria que não tenha revisto os seus números. Algumas poucas empresas até não mudaram seus números, mas reviram. Talvez elas já fossem mais conservadoras. Por isso que muitas só estão lançando projetos agora com financiamento já negociado, para garantir que não vão se enforcar em nenhum momento.
Gazeta Mercantil - Como fica a inadimplência por parte dos clientes finais?
Do ponto de vista do cliente final, o que está acontecendo na prática é a preocupação com a inadimplência. Na nossa carteira - de 16 mil contratos -, o índice de inadimplência é de quase 0%. Ou seja, nós não sentimos ainda um grande aumento na inadimplência. Mas a gente tem acompanhado isso com muito cuidado. Isso já começou a ser sentido mais em financiamento de automóveis, só que você concorda que se o cliente tiver de escolher entre pagar o financiamento do carro e do apartamento, ele vai preferir pagar o imóvel? O carro tem valor menor, é menos básico para vida, é menos prioritário. Assim, a gente passa a fazer parte dos índices de inadimplência em um segundo momento. Mas, por enquanto, nada mostra um crescimento significativo de inadimplência nas nossas carteiras. É certo que o mercado hoje está com medo de desemprego, mas por outro lado os juros estão caindo de novo. O que não é ruim. O que tem é que essa queda seja factorada no custo final, por isso que o mercado discute tanto essa questão do spread. Na verdade, o spread ainda não incorporou esse trading de queda. Por isso que os custos ainda estão altos.
Gazeta Mercantil - Mas vocês foram afetados pela crise de alguma forma?
Por enquanto, eu te diria o seguinte: até o final de fevereiro não. O volume de operações continua bom e estamos até aumentando o pipeline de operações. Isso do ponto de vista de geração de negócios. Mas fomos afetados. Estamos com dificuldade de precificar e por uma coisa que a gente deve começar a sentir em março ou abril é o processo de negociação mais lento. As negociações se tornam mais difíceis, todo mundo passa a procurar a melhor oportunidade, a preocupação com o risco é grande - então a análise de risco se torna mais trabalhosa. Isso faz parte da dinâmica do dia-a-dia. Mas com relação aos números é só entrar no site da CVM que vai ver um volume de operações bem alto. Por sinal, nós somos o maior do mercado hoje. Em janeiro nós fizemos em torno de R$ 140 milhões, a segunda securitizadora fez R$ 17 milhões. No ano passado, a gente teve 50% de market share.
Gazeta Mercantil - E os números de fevereiro já foram fechados?
Em fevereiro, nós emitimos três CRIs no valor entre R$ 260 milhões e R$ 270 milhões. O ciclo da operação é de 30 a 90 dias, em média. Eu tenho noção de que tenho pipeline de operações para daqui 90 dias. Só que as negociações estão mais trabalhosas, as precificações estão mais complicadas. Então, a minha perspectiva para os próximos três meses é boa, só que o desafio é manter esse pipeline para o restante do ano. O que acontecia: no ano passado, o mercado estava muito rápido, então, era uma negociação atrás da outra, e era fácil falar "ah, se mantivermos essa linha de taxa de crescimento vamos estourar acima de R$ 2 bilhões". E nós fizemos, na verdade, mais de R$ 2,4 bilhões, em 2008; já em 2007 foi algo em torno de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões. Então, você imagina o salto, porque, sem dúvida, 2008 foi o melhor ano de securitização imobiliária no Brasil.
Gazeta Mercantil - Quem são os acionistas da Cibrasec?
Eu tenho 26 acionistas, todos são bancos, mas o número vai diminuir porque está tendo muita fusão. O Itaú e o Unibanco são acionistas, tenho Santander e Real, BRB e Banco do Brasil. Além deles, temos o Bradesco, a Caixa Econômica Federal, o Citibank, enfim, todos os grandões. Também temos pequenos acionistas como companhias de poupança. Sou uma empresa controlada pelos maiores grupos financeiros do Brasil. E eu não tenho certos conflitos, porque eu não invisto. Uso o meu capital para comprar. Então, uma coisa que eu acho que tem muito valor agregado é a chancela da Cibrasec, que tem muita capacidade de estruturar operações. Nossas perdas são ínfimas. O grosso dos compradores ainda são os bancos, o que é o legal da coisa. A perspectiva de crescimento, de diversificação de compradores é enorme. É claro que as negociações estão mais difíceis, mas é muito desafiador.
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