Será que não tem outro jeito? Os brasileiros se questionam se aumentar juros é a única arma para manter a estabilidade
Já calejado pelas críticas à política econômica austera do PT, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, responde aos interlocutores sempre com uma pergunta: "Há uma alternativa melhor?". Na semana passada, depois da decisão do Banco Central de elevar a taxa básica de juros para 26,5% e tirar 8 bilhões de reais de circulação, aumentando o depósito compulsório dos bancos, os brasileiros é que se perguntam se não existe outro jeito de manter a estabilidade. Será que a inflação só pode ser contida com o sufoco da economia, com aumento dos juros e diminuição da liquidez? Será que toda a legião de sábios das finanças não produziu até hoje uma fórmula alternativa menos amarga de baixar os juros de forma sustentada, mantendo, ao mesmo tempo, a inflação sob controle? Não existem respostas fáceis a essas perguntas. É preciso estudar caso a caso. Na situação atual, as finanças públicas brasileiras são muito frágeis, e qualquer tentativa de mudar o tratamento que vem mantendo a doença sob controle pode matar o paciente. Ou seja, juros altos são como quimioterapia e radioterapia para um paciente com câncer. Todo mundo sabe que elas debilitam o organismo, mas atacam as raízes do mal que, de outra forma, mataria rápida e dolorosamente o doente.
Os economistas lembram que, da mesma forma que a extinta União Soviética foi um laboratório ideal para estudo do planejamento na economia, o Brasil foi um centro experimental de tratamentos econômicos alternativos. Experimentou-se de tudo, sempre com resultados desastrosos. Sucessivos governos brasileiros tentaram conviver com a hiperinflação, fizeram confiscos, tabelamentos, congelamentos de preços, mudaram diversas vezes o nome da moeda e fixaram o câmbio. O PT lutou por duas décadas contra as soluções clássicas como as que seu governo tomou na semana passada. O fato de ter se rendido a elas não é vergonhoso, mas mostra que, finalmente, o Brasil aprendeu com as más experiências do passado. Baixar juros, diminuir a carga de impostos, tirar o peso do governo dos ombros da sociedade e deixar a economia respirar e crescer precisa ser o objetivo do governo. No curto prazo, o desafio é não sucumbir à crise financeira agravada pela piora do cenário externo com a iminência da guerra entre Estados Unidos e Iraque. "O combate imediato à inflação com a alta dos juros produz custos para a produção e o emprego, mas se se relaxar nesse combate o prejuízo será muito maior", diz José Antonio Pena, economista-chefe do BankBoston.
Da mesma maneira que existe uma quase-unanimidade de que na atual situação a saída imediata deve ser mesmo aumentar os juros, quase todos concordam que manter essa política por muito tempo é ruinoso. Portanto, é urgente fazer as reformas que permitam baixar os juros. O economista Carlos Geraldo Langoni diz que só a reforma da Previdência, que economizaria 70 bilhões de reais por ano ao governo, seria uma "revolução macroeconômica" no Brasil. "Os juros reais poderiam despencar do nível médio de 10% ao ano para algo em torno de 3%", afirma Langoni. "Sem que o governo corte fundo em suas despesas, não há como baixar juros sem riscos de desastres."
São Paulo, que responde por cerca de 35% do PIB brasileiro, é exemplo de um Estado que faliu e só saiu do atoleiro graças à economia rigorosa de despesas. No ano passado, São Paulo registrou um superávit primário (o que sobra em caixa depois de pagas todas as despesas, com exceção dos juros da dívida) de 3,2 bilhões de reais – equivalente a 8% da receita. O governo do PT se comprometeu a produzir um superávit de 4,25% do PIB. Um país pode, como fez São Paulo, economizar 8% do PIB sem levar a economia à recessão? O economista Sérgio Werlang, que foi diretor do Banco Central, recomenda vivamente que o governo do PT estude o caso de São Paulo. "O Estado fez uma economia brutal sem prejuízo dos serviços que prestava à população", diz Werlang. Ele acredita que o governo federal poderia chegar a economizar 7% do PIB. "Não é preciso temer recessão. Com uma economia dessa magnitude, os juros despencam e o país volta a crescer", afirma Werlang. Está cada dia mais claro que, sem a economia que as reformas vão permitir ao governo, muito em breve mesmo o aumento emergencial dos juros pode não funcionar mais. "Estamos chegando a um limite", observa Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. "O aumento dos juros já comprometeu o crescimento da economia nos seis primeiros meses do ano."
Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
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